CLT | Nossos tempos modernos e a criatividade
Escrito por Rafael Amaral
Os caras que lutaram pela Consolidação das Leis Trabalhistas viviam num cenário profissional problemático. Dá pra imaginar o pega-pra-capar.
Ainda hoje existem abusos por aí como salários injustos ou até trabalho escravo, falta de segurança no trabalho e desequilíbrio na carga-horária. Mas a CLT está aí. Numa nobre tentativa de resolver esses problemas.
Só que parece que deixaram os criativos de fora das negociações.
É bem verdade que não é comum criativos serem CLTistas, sobretudo em agências. Mas primeiro: as leis trabalhistas criaram uma cultura de cumprimento de carga horária e rigidez na pontualidade que é imposta até mesmo a estagiários (salve, salve a lei do estágio). Segundo: há sim empregos, e tem um caso desses aqui do meu lado, em que a criatividade é fundamental e que o potencial criativo fica limitado à interpretação, eu diria boçal, da legislação.
O cara tem que programar a criatividade pra ocorrer num determinado horário, como um despertador, como uma máquina.
E não o culpo de se privar de pensar nos projetos em casa, durante uma cerveja ou um banho, momentos que sabemos bem serem os de ápice criativo, uma vez que é obrigado a cumprir 44 horas semanais, custe o que custar, sob pena de descontos no salário ou débito no banco de horas.
O terremoto sentido em São Paulo em abril aconteceu às 21h e no dia seguinte havia um anúncio do Ford EcoSporte num jornal de grande circulação, Folha ou Estadão, não me lembro, que fazia referência ao tremor.
Me é estranho criticar a CLT assim.
Meu pai, a quem devo grande parte da formação da minha personalidade e da construção dos meus princípios, sempre foi sindicalista e acho que não concorda nem um pouco com uma possível flexibilização nesse conjunto de direitos e deveres conquistados a tão duras penas.
Mas acho que cada caso é um caso.
Quem já leu O Ócio Criativo, de Domenico de Masi (e quem não leu aconselho que vá direto ao capítulo 8), acaba obrigado a concordar que nos nossos tempos modernos a CLT tem pouca aplicabilidade e tem gente de muito potencial pagando o pato por ações populistas dos governos.
Gui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e coordenador de comunicação da ONG Teatro de Tábuas.
Contato: guipignata@gmail.com
